sábado, 31 de janeiro de 2015

Infante


Dá-me o sol a minha fronte. Doloridos 
e chagados meus pés descalços vão fugindo... 
- Memórias dos meus doidos passos incontidos! 
- Ó meu rumor do mundo em pétalas abrindo! 

Ó corças que correis pela tarde desferindo 
o balido ligeiro que alonga os ouvidos... 
- Tarde de écloga e mel silvestre reluzindo... 
- Minhas vinhas de vinhos de oiro não bebidos... 

Desfolham-se ilusões e vão-se sem apegos... 
Murchou a flor dos meus desejos com que pude 
a vida transformar em ócios e sossegos... 

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execráveis 
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude? 
- o pródigo que fui dos erros inefáveis! 

Luís de Montalvor, in Antologia Poética

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

A minissaia

O Diário Popular de 30 de janeiro de 1967 traz, na 1ª página, uma fotografia da loja Contraste, na Rua da Vitória, em Lisboa, onde todas as empregadas vestem minissaia. «É, sem sombra de dúvida, um dos estabelecimentos mais invulgares da capital», afirma aquele jornal, acrescentando que «oitenta ou noventa por cento [da clientela] são jovens dos 14 aos 19 anos, de ambos os sexos, à procura de umas calças roxas ou de uma saia constelada de ferragens metálicas… Quanto às empregadas, a gerência entendeu, muito judiciosamente, que não deveriam destoar da freguesia: ei-las portanto, todas muito novas, muito esguias, muito sorridentes, de calças ou de minissaias (sim, de minissaias!)». O jornal conclui a reportagem afirmando que estas empregadas se inserem autenticamente no mundo pop.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Requiem

O "Requiem" em Ré menor (K. 626) é uma missa fúnebre do compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart, de 1791, a sua última composição e talvez uma das suas melhores e mais famosas obras, não apenas pela música em si, mas também pelos debates em torno de até qual parte da obra foi preparada por Mozart antes da sua morte. Teria sido posteriormente finalizada pelo seu amigo e discípulo Franz Xaver Süßmayr.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Saudades não as quero

Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito

Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero

Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram

Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero.

Afonso Lopes Vieira, in Antologia Poética


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Zé Povinho

O "Zé Povinho" é uma das mais conhecidas personagens criadas por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905). Confunde-se com o povo português amplificando todos os seus defeitos e virtudes. Criado há mais de cem anos o Zé continua a ser nosso contemporâneo.
A personagem nasceu em 1875 e passou a surgir com frequência nas vinhetas publicadas por Bordalo Pinheiro nas diversas publicações que editou ou onde colaborou. O “Zé” foi assumindo a personalidade do povo, mas também as críticas ao sistema político e aos seus protagonistas. Os regimes passaram e as críticas assumiram novos contornos ultrapassando mesmo a vida do seu autor, com o “Povinho” a recriar-se nas mãos de novos autores e criadores. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Assalto ao Santa Maria

Na madrugada de 22 de janeiro de 1961, o paquete Santa Maria, da Companhia Nacional de Navegação, quando navegava em águas internacionais das Caraíbas, é tomado de assalto por um comando do Diretório Revolucionário Ibérico de Libertação. Esta operação, capitaneada por Henrique Galvão, delegado plenipotenciário do general Humberto Delgado, pretendia ser um rastilho para um levantamento insurrecional contra as ditaduras ibéricas de Salazar e Franco. Apenas a 24 de janeiro, os jornais portugueses, condicionados pela censura prévia, referenciaram este assalto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

O António Maria

A 21 de janeiro de 1885 é suspensa a publicação do semanário ilustrado humorístico O António Maria. O primeiro número deste semanário saiu em 12 de junho de 1879, prometendo fazer "em prosa e em verso, à pena e a carvão, a silhueta da sociedade portuguesa do último quartel do século XIX". Publicou-se de 1879 a 1885, tendo reaparecido, numa 2ª série, de 1891 a 1899. O António Maria viria a converter-se no mais notável álbum de caricaturas até então produzido em Portugal. Fundado e dirigido por Rafael Bordalo Pinheiro, contou com a colaboração literária de Ramalho Ortigão e de outras conhecidas figuras da época.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meu cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trémula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Mário Quintana

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

domingo, 18 de janeiro de 2015

Vanina e Guidobaldo

Esta história de amor aparece contada por Sophia de Mello Breyner Andresen na obra "O Cavaleiro da Dinamarca" e é uma história encaixada na história da viagem do Cavaleiro. Este chega a Veneza e um mercador conta-lhe a história de Vanina e Guidobaldo.
Vanina era órfã de pai e mãe e Orso era o seu tutor. Quando ela era criança, o tutor prometeu-a em casamento a um seu parente chamado Arrigo. Quando ela atingiu os 18 anos, não quis casar com ele, porque achava que era muito velho, feio, maçador e tonto. Orso, seu tutor, fechava-a em casa, apenas a deixava sair para ir à missa em sua companhia. Durante os dias da semana, Vanina prisioneira suspirava e bordava, mas sempre espiada pelas aias. Durante a noite, Vanina abria a janela do seu quarto, debruçava-se na varanda e penteava os seus cabelos que eram loiros, leves, brilhantes e tão perfumados que até de longe se sentia, na brisa, o seu aroma. Os jovens rapazes de Veneza vinham, de noite, ver Vanina a pentear-se. Mas nenhum podia aproximar-se dela, pois o seu tutor mandaria apanhá-los. Vanina, jovem e bela e sem amor, suspirava naquele palácio. Um dia, chegou a Veneza um homem que não tinha medo de Jacob Orso. Chamava-se Guidobaldo e era capitão dum navio. O seu cabelo preto era azulado, e a sua pele estava queimada pelo sol e pelo sal.
Certa noite, Guidobaldo passou na sua gôndola e sentiu no ar um maravilhoso perfume, levantou a cabeça e viu Vanina a pentear os cabelos. Aproximou o seu barco da varanda e disse a Vanina que para cabelos tão belos e tão perfumados era preciso um pente de oiro. Vanina sorriu e atirou-lhe o seu pente que era de marfim. Na noite seguinte, o jovem capitão tornou a deslizar de gôndola. E Vanina disse que naquele dia não podia pentear-se porque não tinha o seu pente de marfim. O capitão deu-lhe um presente que era um pente de oiro para ela se pentear. E, desde esse dia, a rapariga mais bela de Veneza passou a ter namorado. Quando os amigos do capitão souberam da notícia, foram logo preveni-lo, estava arriscar a sua vida, pois Orso não lhe perdoaria. Guidobaldo, como não teve medo, sacudiu os ombros e riu-se. E, ao fim de um mês, foi bater à porta do tutor e pediu a mão de Vanina, mas Orso disse que Vanina estava noiva de Arrigo e deu o prazo de um dia para sair de Veneza, pois se não saísse, mandaria sete homens com sete punhais atrás de Guidobaldo para o matarem. Guidobaldo fez uma reverência e saiu. Nessa noite, no silêncio da noite, a sua gôndola parou junto da casa de Orso e Vanina desceu na escada e entrou na gôndola do seu amado. Guidobaldo cobriu-a com a sua capa escura e afastaram-se, na calada da noite. Na manhã seguinte, as aias aperceberam-se da falta de Vanina e correram a dizer ao tutor. Então Jacob Orso chamou Arrigo e com ele os seus esbirros dirigiram-se para o cais. Quando chegaram, o navio de Guidobaldo já tinha desaparecido. Jacob Orso pediu a um velho marinheiro seu conhecido para contar tudo o que sabia. O homem disse a Orso que o capitão e Vanina chegaram ao cais a meio da noite, chamaram um padre para os casar numa capela, a dos marinheiros. Mal terminou o casamento embarcaram e, ao primeiro nascer do dia, o navio levantou a âncora, içou as velas e navegou para o largo. Orso olhou para a distância e o navio já não se avistava, pois a brisa soprava da terra. As águas estavam verdes, claras, ligeiramente ondulantes e cobertas de manchas cor de prata. Tutor e Arrigo queixaram-se à senhoria de Veneza e ao doge. Depois mandaram quatro navios à procura dos fugitivos, partiu um navio para cada direção. Como o mar é grande e há muitos portos, muitas baías, muitas cidades marítimas e muitas ilhas, desde esse dia nunca mais ninguém os encontrou.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Adolfo Correia da Rocha

A 17 de Janeiro de 1995, morre, em Coimbra, o escritor Miguel Torga, nome literário do médico Adolfo Correia da Rocha. Proposto várias vezes para o Prémio Nobel da Literatura, a sua vasta obra abrange a poesia, o romance, o teatro, o conto, as crónicas de viagem e as memórias. Entre os seus textos mais conhecidos estão "Os Bichos" (1940), "Odes" (1946) e os 16 volumes do seu "Diário", abrangendo o período entre 1941 e 1993. Ganhou o Prémio Internacional de Poesia (1977), o Prémio Montaigne (1981) e o prémio Luís de Camões (1989).

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Individualidade

Tu podes, com certeza, conviver com os outros, mas nunca seres os outros. Eles podem ser muito bons, mas tu és sempre melhor porque és diferente e o único com as tuas características.
Agostinho da Silva

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Inês de Castro

Razões de ordem política levam o rei D Afonso IV a mandar executar Inês de Castro, amante do seu filho D. Pedro. Esta cruel tarefa é levada a cabo, a 7 de janeiro de 1355, por três elementos da nobreza: Álvaro Gonçalves, Diogo Lopes Pacheco e Pêro Coelho. Aproveitando a ausência de D. Pedro numa caçada, dirigem-se ao Paço de Santa Clara, em Coimbra, onde a bela Inês se encontra “posta em sossego” e matam-na. Camões imortaliza, n'Os Lusíadas, os amores de Inês e D. Pedro.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ilse Lieblich Losa

Ilse Lieblich Losa foi uma escritora portuguesa de origem judaica. Nascida na Alemanha (1913), frequentou o liceu em Osnabrück e Hildesheim e mais tarde um instituto comercial em Hannover. Ameaçada pela Gestapo de ser enviada para um campo de concentração devido à sua origem judaica, abandonou o seu país natal em 1930. Deslocou-se primeiro para Inglaterra onde teve os primeiros contactos com escolas infantis e com os problemas das crianças. Chegou a Portugal em 1934, tendo-se fixado na cidade do Porto, onde casou com o arquiteto Arménio Taveira Losa, tendo adquirido a nacionalidade portuguesa. Em 1943, publicou o seu primeiro livro "O mundo em que vivi" e desde dessa altura, dedicou a sua vida à tradução e à literatura infanto-juvenil, tendo sido galardoada em 1984 com o Grande Prémio Gulbenkian para o conjunto da sua obra dirigida às crianças. Em 1998 recebeu o Grande Prémio de Crónica, da APE (Associação Portuguesa de Escritores) devido à sua obra "À Flor do Tempo". Colaborou em diversos jornais e revistas, alemães e portugueses, está representada em várias antologias de autores portugueses e colaborou na organização e traduziu antologias de obras portuguesas publicadas na Alemanha. Traduziu do alemão para português alguns dos mais consagrados autores. Segundo Óscar Lopes "(...) os seus livros são uma só odisseia interior de uma demanda infindável da pátria, do lar, dos céus a que uma experiência vivida só responde com uma multiplicidade de mundos que tanto atraem como repelem e que todos entre si se repelem." 
Faleceu no Porto, no dia 6 de janeiro de 2006.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Eu Simplesmente Amo-te

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.
Pablo Neruda, in Cem Sonetos de Amor


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015