De
repente achei-me cercado de ódios; cortaram-me os viveres na empresa
do jornal, nas aulas de Direito tiraram-me a mesquinha distinção
académica, os críticos espalmaram-me rudemente, os livreiros
recusaram-se a dar publicidade ao que escrevia, e os patriarcas das
letras com o peso da sua autoridade sorriam com equívocos sobre o
meu valor intelectual, chegando a circularem lendas depressivas do
meu carácter e costumes, que só consegui
desfazer com uma vida às claras e cheia de ignorados sacrifícios.
Outro qualquer se teria rendido. Vi-me forçado a inverter as bases
da minha existência, abandonando a Arte que me seduzia, porque me
abandonara a serenidade contemplativa, e lancei-me à crítica, à
erudição, à ciência, à filosofia.
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domingo, 29 de maio de 2016
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Do Sentimento Trágico da Vida
Não há revolta no homem
que se
revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas
um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da
teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em
filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele
nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é
ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos
há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa
mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos
mata devagar.
E só depois de informado
só
depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia
de saber
o que só então se sabe
e não se pode
contar.
Natália Correia, in Poemas (1955)
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